Meu pastor, meu medo e minha fobia

1 comment

Posted on 4th julho 2010 by Roberto in Cartas

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Te olho nos olhos
Creative Commons License photo credit: GilbertoFilho .

Querido Caio, meu pastor.

Recebi tua resposta há alguns meses e desde então tenho tentado digeri-la – e mais: vivê-la!

Só que como você mesmo nos ensina aqui, tudo é fácil quando não estamos vivendo, quando não estamos no olho do furacão.

Daí porque eu re-alimento a questão (recalques, eu sei), perguntando: “Se a santidade vem de Deus e não do homem, por que eu me bato tanto (poderia ter escrito esmurro também) pra conseguir me apropriar dela e pra conseguir ser santo e não ferir a Santidade de Deus?”

Cara, você deve ter noção sim de como é horrível a gente estar em luta conosco mesmo a todo o momento. A luta de não querer, como se lê na Bíblia, entristecer o Espírito Santo

Cara, eu sinto nestes últimos dias que Ele simplesmente foi embora. Sumiu. Me abandonou. Ou eu teria abandonado Ele?

Nem sei se agora peço a sua ajuda. Só sei que pra mim tá difícil. São dias tristes em que a Graça parece passar à minha frente sem que eu consiga tomar posse dela… (o Philip Yancey fala disso em “Maravilhosa Graça”, que li, achei lindo, forte, poderoso, mas não consigo viver…).

Tomar posse…

Ah! Cara, eu tô de saco cheio desse negócio de religião! De ficar repetindo palavras do tipo “o meu casamento é o melhor!”… etc etc etc, como se pela repetição a gente fosse se apropriar de algo…

Pode até ser que sim, que se apropria, mas fica por ali um cheiro de maracutaia. De que não é isso. De que é algo maior viver em Cristo…

Mas ao mesmo tempo eu leio o último texto publicado hoje (26.08) da resposta ao nervoso rapaz chamado de fariseu e encontro na fala dele, aqui e ali algo que me chama. Algo de religioso que sussurra aos meus ouvidos: “Vem, vem…”.

Taí, desculpa Caio, sou mais uma alma infeliz e conturbada a te escrever…

Caio, nosso pastor amado.

Caio, aquele que se entristece com o nosso não-entendimento.

Mas saiba, eu tento. Eu tento.

Serei mais um daqueles que apenas foram chamados?

E ainda por cima me colocam pra tocar lá na frente todo domingo.

E tomar conta de células.

Tomar conta e “trabalhar” com os jovens…

Com quem além de você eu posso me abrir?

Ore por mim, eu te peço.

Um forte abraço,

Pós-escrito:

Caio, eu te escrevi as linhas aí em cima no dia 26.08, e retransmito como
você pediu que fizéssemos, já que tudo sumiu do teu lap. Abuso da tua
paciência e encaminho outro pedido de socorro, digamos assim, que está
publicado no meu blog e que retrata ainda mais a minha condição hoje com
Deus. Condição? Que coisa mais esquisita esta que eu escrevi… Ato falho?

Eis o texto:

“O grito”

Em dias assim eu queria ser um pássaro. Um bicho qualquer – menos barata, que abomino -, mas um bicho que não pensasse em nada. Um ser assim inóspito, suficiente na sua limitação animal.

Digo isto porque faz três dias que voltei a tomar meu remédio a base de clonazepan, a fim de que eu consiga suportar minha existência.

Tudo veio do nada.

Eu voltava de viagem e minha esposa me deu uma palavra dura – que noutro tempo nem poderia ser dura -, e eu fui esvaziando como aquelas bexigas de festa que depois de cortado o bolo vão perdendo a graça.

Tomei 20, depois mais 10, depois mais não sei quantas gotas e agora estou
aqui debruçado sobre este teclado pedindo socorro.

A quem?

A mim mesmo, talvez.

É nestas horas, eu mesmo já preguei sobre isto na igreja, que tudo deveria fazer sentido em Cristo.

É nestas horas que a gente deveria sentir aquela alegria que os Evangelhos dizem vir do Senhor.

Mas eu não a sinto.

Resta aqui dentro um vazio imenso.

Enorme.

De dar medo.

Seja qual for seu credo – mesmo que nenhum – ore por mim.

Estou mal.


(15.09.04)

____________________________________________________________


Oi Caio, desde já me desculpo pelo tamanho da carta.

Eu sou aquele teu conterrâneo que já te escreveu em algumas oportunidades e você, gentilmente, respondeu. Naquelas ocasiões a gente falou sobre a neurose de santidade, coisa e tal.

Pois bem. Acontece que muita coisa mudou na minha vida de três semanas pra cá.

Eu não pude mais agüentar algumas coisas e saí do ministério onde aceitei a Jesus há quase quatro anos.

Tem sido difícil porque eu re-nasci lá. Lá também eu cresci, aprendi quase tudo o que sei, e tive até algumas experiências sobrenaturais sim, posso dizer. Enfim, eu estava de corpo, alma e espírito lá. Mas isso foi por um tempo. Isso porque meu espírito não estava mais lá de uns tempos pra cá. E minha alma estava ficando adoecida ao invés de curada…

Digo isso porque há alguns meses eu comecei a me incomodar com algumas coisas: a carga de submissão; o lance de você nunca ser alguém com uma opinião, mas um rebelde; o medo que eu tinha – e ainda tenho – do pastor, e muito mais.

Não posso dizer que tudo isso tem a ver com o esquema do G12 que lá é praticado, mas talvez com a personalidade do pastor mesmo. Caio, ele se diz sanguíneo (numa classificação rastaquera que apareceu por aí e que está na apostila do G12), mas eu acho que muitas vezes ele foi e é mal-educado mesmo…

Bom, mas eu não quero falar mal dele, ainda mais porque ele sempre pregou sobre a maldição de Miriam. Aliás, eu tenho tentado esquecê-lo e tudo o que de ruim ele me falou.

Pra você entender algumas coisas – e eu sei que posso estar te cansando, mas considero importante contar – esclareço que eu era ministro de louvor/música lá. Mesmo sendo novato eu era a pessoa que comandava a equipe de música e ministrava o louvor. Eu também abria alguns cultos e pregava a Palavra em outros. Bom, mas a coisa foi se desgastando, e em que pese o lema do ministério ser a família, eu estava abandonando a minha. Isso porque eu vivia lá na igreja, de segunda a segunda. Muitas atividades, muitas mesmo.

E eu fui cansando. Fui desanimando. E tudo isso sendo um dos 12 do pastor…

Bom, ocorre que alguns dias antes da minha saída eu falei pro pastor que a coisa tava ruim, que eu estava preocupado com a minha família, e que também achava que o lema do ministério não estava sendo cumprido e ele me disse que ia ver. Mas numa noite ele me liga em casa e diz de bate-pronto: “Olha fulano, se o ministério está atrapalhando a sua família, abra mão dele então, porque eu sei quem sou e não admito ouvir dizer que a igreja está atrapalhando a sua vida.” E disse mais: “veja o que está pegando pra você e decida”. E por fim, diante de uma pergunta minha sobre o que fazer – se eu deveria ficar com minha família ou com a igreja – , ele me disse: “Aí você me coloca numa sai justa, eu não sei, você é quem tem que decidir, mas o que eu não aprovo é domingueiro na liderança da igreja.”

Cara, foi um baque!

Ainda que eu quisesse mesmo sair já há algum tempo, digo que a coisa toda doeu, e ainda dói na verdade. Tudo sangra aqui dentro, ainda que eu queira esquecer esta história.

Depois disso, Caio, eu decidi mesmo sair. E me senti mais leve. Mais solto. Mais humano…

E logo no domingo seguinte fomos, eu e minha esposa, a outro ministério e nos sentimos bem. Ouvimos a Palavra, bebemos dela e ficamos felizes, como você diz, encontramos um lugar onde se anuncia a Boa Nova da Graça de Deus.

Mas aí veio o fatídico dia… Seis dias depois do telefonema, ele, o pastor veio aqui no meu trabalho, numa agência de publicidade.

Cara, eu tremia, tremia, tremia. E isso é absolutamente anormal para um cara de 39 anos, publicitário, pai de três filhos, com quase 17 anos de empresa, respeitado por todos.

E ele me perguntou se eu não ia falar com ele sobre a minha saída. Que eu estava me escondendo na caverna. E que ele ficara sabendo dela, da saída, por outras pessoas do ministério que haviam me procurado.

E eu respondi que não me sentia em condições ainda de procurá-lo e que por isso não havia feito isso.

E ele aí começou a dizer coisas que me deixaram e ainda me deixam preocupado. E é por isso que te escrevo hoje… Pois fiquei e estou mal com tudo o que ele me disse.

Ele disse:

1º. Que eu não era discípulo, porque discípulo é submisso;

2º. Que eu não agüentara o primeiro tratamento mais forte e tava correndo;

3º. Que eu estava saindo por um capricho da minha mulher;

4º. Que eu que era um homem espiritual, mas que estava indo pela cabeça de uma mulher com uma visão material das coisas e que, portanto, isso não era de Deus;

5º. Que não sabia de que altar eu andava comendo;

6º. Que eu estava enterrando o talento que Deus me dera e que isso era passível de inferno;

7º. E que ele e eu tínhamos feito uma aliança no céu – quando eu tinha sido ungido um dos seus 12 – e que agora eu estava querendo pegar uma borracha e apagar isso sem mais nem menos.

Bom, em resumo foi isso.

Foi até engraçado porque eu disse pra ele que desde a minha decisão de sair, e até aquele momento, eu até que estava gostando da minha mulher de novo, tendo apetite por ela de novo, mas que agora, diante de tudo o que ele estava me dizendo, eu tava até pensando em me separar… (eu dou risada pra não chorar…).

E disse ao final que não ia orar por mim porque não era de Deus a minha saída.

Eu só escutei e fui adoecendo com aquilo tudo. Mas no final disse que se fosse pra quebrar a cara em outro ministério, eu tinha que quebrar. Mas que nunca ia me esquecer do que ele tinha me ensinado. E se tivesse que voltar, voltaria e ficaria no banco sem problemas.

Bom, foi isso.

E hoje eu te confesso que eu estou aqui, uma semana depois deste terrível “papo” com ele, todo perdido.

Cara, eu me sinto fraco, sabe. É como se alguma coisa tivesse me sugado. Será que isso é sinal de que não deveria ter saído?

Sabe, uma das coisas que me fizeram sair é que ele não admitia que eu lesse e comentasse sobre você (de repente um destes altares estranhos na visão dele…).

E eu não podia ficar num lugar sem poder ser verdadeiro.

Estranho porque ao mesmo tempo em que eu me sinto aliviado por ter saído, eu me sinto mal com isso tudo.

Daí eu te pergunto: eu estou amarrado a ele? Eu estou fadado a viver assim, com medo dele? Eu tenho que voltar lá de novo e me desculpar de tudo de novo – até do que não fiz – e me humilhar pra conseguir a bênção dele?

Ah, Caio! Se você estivesse em Manaus eu iria pro Caminho da Graça.

Obrigado pela tua força.

Um dos teus textos intitulado “Veja o que a Graça pode fazer por você” me deu muita força antes e agora na minha saída.

E o legal disso tudo, sei lá, é que um dos 12 veio até aqui e me disse que as coisas com a minha saída iam mudar e elas mudaram. Ele aliviou a carga dos compromissos, mas eu ainda assim confesso que me sinto um refém psicológico dele.

Como me libertar?

Um forte abraço,

Como escrevi na ultima carta, Caio, meu pastor.


Observação: Eu e minha esposa estamos ansiosos pela tua resposta, Caio. Muitas pessoas dizem tanta coisa, mas o que queremos e precisamos é da direção de uma pessoa de Deus, e conseqüentemente, sensata como você.

Te amamos!

____________________________________________________________

Oi Caio, Graça e Paz!


Dias atrás te escrevi sobre minha saída do grupo religioso onde eu estava, e de outras questões como a minha ligação com o pastor de lá. Eu sou o famigerado neurótico pela santidade (risos).

Aliás, eu era.

Digo isso porque meio que tudo dentro de mim já passou: as neuras que eu tinha àquela época (recente, eu sei); as encucações acerca da minha ligação com as pessoas e com a pessoa do pastor lá, idem. Tudo, em absoluto, meio que o tempo levou pra debaixo de algum tapete.
E a fase e frase é bem essa mesmo: debaixo do tapete.

Eu sinceramente não tenho mais pique pra me relacionar com demonstrações de ligação com o Divino.

Fruto do g-12, talvez.

Fruto da minha natureza, certamente.

E que natureza é essa? Olha, pelo pouco que me conheço é uma natureza cansada de quase tudo, sabe…

Engraçado como as coisas perdem as cores; né?

Perdi o apetite: des-gosto.

Será que a existência será sempre essa coisa dolorida para os que insistem em pensar sobre ela?

E como parar de pensar?

Tenho medo de estar relativizando o absoluto.

Medo de relativizar a um ponto em que, sendo quem eu sou – detalhei isso na outra mensagem – eu caia novamente nas mãos de alguém como o que me “gerou” em Cristo.

E sabe… Eu tenho medo de relativizar isso também. Essa tal gestação em Deus…

Lembro agora que certa vez passeando por aqui eu li alguma coisa sua dizendo que contigo não tinha sido mais uma historinha… Que contigo Deus tinha se revelado de FATO e de VERDADE.

Ah, eu não alcanço isso…

Um beijo,
___________________________________________________________

Oi Caio.

Vi hoje a re-publicação duma resposta muito carinhosa sua para uma fase em que eu me preocupava com a tal santidade. Saiu com o título “Neurose de Santidade”.

E daí, do alto da minha dor de cabeça que não passa, eu li tudo de novo e pensei: “engraçado como isso não me afeta mais…” (…) “engraçado como isso era tão importante à época…”

Assim eu vejo mais uma fase que foi. Mais um percurso que se encerrou. Tanto quanto aquele outro percurso sobre o qual lhe escrevi: falo das mensagens angustiadas que te mandei logo após a minha saída da igreja onde eu congregava.

Cara! como o tempo levou tudo isso embora…

Como as coisas – quase todas as que se referem a fé e outras instâncias – estão sem cor pra mim hoje.

Mais um percurso?

Talvez.

Beijo grande.
____________________________________________________________


Resposta:


Meu amado irmão: Graça e Paz!

Embora nossas primeiras cartas tenham sido sobre “santidade neurótica”, acompanhei os desdobramentos de suas cartas posteriores sem poder interagir como gostaria, posto que estive adoentado no início do ano, como você sabe.

Na realidade, perdi duas correspondências suas para mim, uma das quais só achei ontem à noite, a qual aqui transcrevo também, a saber: a carta na qual você confessa seu pavor pelo pastor g12, seu preceptor em Cristo.

Ora, fui procurar possíveis correspondências perdidas nessa pilha de milhares de e-mails que estão aqui alojados no meu Outlook, e encontrei a tal carta; o que muito me angustiou.

No entanto, o que me levou a tentar buscar “elos” perdidos em nossa correspondência, foi a sua última Carta Descolorida. Foi então que descobri a Carta do Tudo Varrido Para Baixo do Tapete.

Ora, ler todas as cartas na seqüência—e aqui não colei tudo o que li, a fim de não tornar tudo longo demais—, percebi que sua estrutura psicológica foi muito mexida pela sua experiência na igreja do pastor g12.

No entanto, também percebi que só houve esse impacto todo em razão de que psicologicamente você já era frágil, e, pelo que percebi, isso é algo que o acompanha há muitos anos.

Se eu tivesse que pintar um quadro, eu diria o seguinte:

Você sempre foi uma pessoa angustiada (neurótica), com intensa busca por uma razão para viver (tendência a depressividade), e que já vinha sendo medicado em razão de tais aflições interiores, até que chegou na igreja, e, ouviu algo do Evangelho, alegrou-se, entregou-se, e viveu com alegria as ocupações que recebeu, visto que você é um homem talentoso.

Acontece que a “igreja” estava funcionando apenas como “terapia ocupacional” para um homem com forte tendência à depressão, e que, agora, encontrara um significante modo de servir e expressar seus dons e talentos, o que deu a você um novo ânimo para a vida.

O problema é que como você também é muito inteligente, logo viu as doenças que lá havia, aos montes; e, além disso, começou a se angustiar ante o processo de desindividualização que o tal G12 produz em todos aqueles que se submetem ao espírito de tal ‘clonagem’.

Quando você me escreveu a primeira vez a piração era acerca da sua “neurose de santidade”. No entanto, esse tema ainda é bastante superficial se considerarmos o todo de seus conflitos.

Na realidade o que aconteceu é que você ficou sabendo que em Jesus você tem vida, no entanto, dada a experiência tão trágica na igreja g12, você iniciou um processo que combina as frustrações presentes com as tendências e realidades depressivas que já existiam dentro de você.

A emoção que sua carta acerca do pastor me passou, foi a de “um menino que foi seduzido e controlado pelo líder de uma seita”.

Seu medo, seus tremores, seus temores, seus suores, suas mãos geladas, suas noites insones, seu pavor…

E quando você disse: “Como pode? Eu? Um homem de 39 anos, pai de filhos, publicitário, respeitado…?”—e com medo; você revelava o desencontro profundo entre a sua razão e as suas emoções.

De fato, certas vezes, sua carta chegou a soar como a carta de uma amante dependente e apavorada, e que havia traído o seu homem. Isso porque até mesmo a proposta do pastor g12 era uma proposta de amasiamento e conjugalidade: ou sua mulher ou ele.

O fase do “jogar tudo para baixo do tapete”, conforme você mencionou num dos e-mails, após a sua saída do G12, era apenas uma tentativa de sublimação de algo que ainda estava aí, e com muita força. Ora, como você passou por cima sem olhar o que era—jogou pra baixo do tapete—, o monstro voltou na forma do Descolorido.

Percebi que você evita até mesmo pensar em sua conversão, pois, como aconteceu tendo o pastor g12 como preceptor, você teme concluir que como ele é doido, sua experiência com Deus não tenha sido válida. Daí, hoje, você até mesmo pensar que nem mesmo teve um encontro com Deus.

Ora, seu problema não é com Deus, mas apenas com você mesmo. E mais: enquanto você olhar a vida com esse medo, nada de bom lhe acontecerá.

Você disse que tem tudo para ser feliz—mulher, sexo bom, filhos lindos, bom trabalho, etc—, mas afirma que não consegue, posto que tudo se descoloriu bem diante de seus olhos.

Você mesmo diagnosticou uma dependência doentia que se instalou na sua relação ou caso ministerial com o pastor g12.

Ora, isso me leva a fazer a você algumas indagações, as quais, eu espero que você entenda, posto que meu único desejo é ajudar.

1o Como era seu pai e como era ou é sua relação com ele?

2o Alguma vez na vida você já se sentiu emocionalmente atraído por algum homem?

3o Você já esteve antes na vida numa posição de submissão a alguém?

4o Como e em que ocasião sua depressividade se manifestou a primeira vez? E com que idade?

Ora, pergunto estas coisas porque considero que tudo o que você me narrou é apenas sintoma de algo mais profundo, e que precisa ser descoberto; isso para que você tenha paz para poder se tratar.

Enquanto isto, leia aqui no site uma Entrevista Sobre Discipulado, pois, eu sei que nela você terá também as respostas às perguntas que me fez acerca de sua relação com o pastor g12; ou seja: se deve pedir perdão a ele e voltar a levar a Canga-G-12 sobre seus ombros para sempre, ou não.

Além disso, tome o N. Testamento nas mãos e os salmos, e os leia sem buscar nada. Apenas leia. Leia em paz. Não busque emoções, nem sensações, nem choros, nem revelações, nem coisas sobrenaturais… Apenas leia, e deixe-se lavar pela Palavra.

Na realidade você foi profundamente condicionado e mentalmente higienizado pela “lavagem gedoziana”, e, agora, precisa ser limpo e lavado de tais condicionamentos que se fixaram em suas emoções.

E mais: não associe a Graça de Deus a emoções. A fé baseada em emoções não é fé, mas apenas sensações. Na Graça de Deus a gente anda apenas pela fé, mesmo que não haja nenhuma emoção. Isto porque a vida na Graça se baseia em fé e consciência acerca do que Jesus fez e Consumou, e não em arrebatamentos que supostamente validam ou não a presença de Deus em nós.

Eu nunca vi um anjo, nunca rolei no chão em tremores, nunca ‘caí no Espírito’, nunca levei um tapa do diabo, nunca senti que minha cama estava sendo sacudida, nunca…

Falo em línguas, mas isso é coisa simples. E não baseio minha vida com Deus em nada disso. Portanto, quando disse que não sou filho de uma “historinha”, mas de um encontro verdadeiro, eu não dizia nada além do fato de que sei que conheço a Jesus, e isso pela Palavra, e pela atualização que o Espírito faz dela em meu coração todos os dias, me chamando para entregas cotidianas, e para uma vida de confiança; ou seja: tudo pela fé.

Assim, me responda, por favor, as perguntas que lhe fiz, pois, uma vez que tenha as respostas me sentirei mais confortável para lhe sugerir algumas coisas mais práticas. O que posso lhe garantir é que se você crer e confiar, tudo isso vai passar, e você terá paz para usufruir o bem que habita a sua vida, e que é pura Graça de Deus.

Receba meu beijo amigo!


Nele, em Quem ninguém serve com medo,

Caio

_______________________________________________

Oi Caio.


Antonin Artaud diz que certas emoções não cabem em palavras. E é assim que eu tenho me sentido ao receber tanto carinho e atenção de você. Não há palavra que expresse meu sentimento.

Desculpa mas o texto ficou extensíssimo. Tentei te responder tudo e talvez algo mais.

Obrigado.

[Respostas às suas perguntas:]

1. Como era seu pai e como era ou é a sua relação com ele?

A relação com meu pai, hoje, é de empatia. Foram anos, confesso, para que a minha mágoa em relação ao abandono que ele fez da nossa família – quando eu tinha 7 anos de idade – passasse.

Hoje muitas vezes eu olho pra ele, meu pai, e vejo um cara que foi engolido
pelas conseqüências da via, digamos assim. Quais sejam:

a. Um casamento ruim que depois passou pra outro pior ainda.

b. Uma descoberta minha de que ele é um cara fraco, cheio das suas angústias, medos, desejos de relações sexuais com outras mulheres que acontecem na mais sórdida surdina – e eu aqui não estou julgando isso nele, porque também muitas das vezes eu me vejo tentado a ir pelo mesmo caminho.

c. Vejo também que ainda hoje eu e ele meio que forçamos uma amizade – que é até sincera (ele até diz que dos 5 filhos, eu sou o único com quem ele se abre, fala das suas fraquezas etc) -, mas que ao final é uma amizade que eu sei estar em segundo plano sempre, visto que meu irmão mais velho – o primogênito – é quem de fato liga pra ele com mais freqüência, se preocupa com as coisas dele.

d. Engraçado, paradoxal, mas é uma empatia de atração e “deixa-pra-lá”.
Somos, ao final, meio que cúmplices das nossas vias tortas.

e. Tenho um pai, Caio, mas sinto que eu esperava em Deus, e no preceptor “gedoziano” um pai melhor.

f. Por fim, meu pai quando soube da minha saída do ministério g-12 disse que já tinha isso como certo, porque na visão dele eu estava fazendo sombra pro outro pastor, e que na verdade – ele me disse isso anteontem – eu agora só preciso mesmo é de um púlpito e de um povo pra tomar conta, porque ele me assegura que quando eu trago a Palavra ela vem forte, ela vem clara, ela vem como as pessoas deveriam ouvir.

g. Confesso que me surpreendi com essa declaração dele. Eu que achava que ele tava me achando um fanático, um doidivanas. Mas ele me disse anteontem que não, que ele na verdade teve no início ciúme do pastor g-12, mas agora sabe que eu fui “promovido”, e que vou tocar este caminhar no Caminho na boa.

h. Como é então minha relação com meu pai? Em resumo: um medo de ter todos os defeitos que vejo nele, e, ao mesmo tempo, um parceiro/cúmplice das suas (nossas) angústias.


2. Alguma vez na vida você já se sentiu emocionalmente atraído por algum
homem?

Sim e não. Na adolescência eu tinha um medaço de ser homossexual. Era muito magro, esquisito, de repente tinha até – e talvez tenha ainda hoje – alguns trejeitos que não seriam classificados como de um cara macho: daqueles que coçam o saco e cospem no chão. Tudo isso até porque meu irmão mais velho era esportista – chegou até a ser jogador de futebol profissional – e eu fazia aquelas fatídicas comparações. O cara lá, todo gostosão, dono de si, a mulherada dando o maior mole, e eu ali em casa ouvindo meus discos, fumando meus cigarrinhos e pensando na morte, lendo Cruz e Souza. Um fato que me marcou foi quando na faculdade eu encontrei numa prateleira um livro ilustrado do Jean Genet, se não me engano, e levei um baque ao ver aquele desenho de dois homens transando. Os dois em pura ereção. Foi um baque.

Lembro que fechei o livro na hora e aquilo me moveu a nunca mais querer ver este tipo de coisa. Daí porque digo que hoje eu sou heterossexual mesmo. Gosto de mulheres. Mulheres delicadas, femininas, que apreciem um bom vinho, um bom papo, e um ótimo sexo. Não tenho fantasias com homens, definitivamente. Se a extensão da pergunta chega na hipótese da minha relação de “amante traída” pelo pastor g-12, posso afirmar com todas as letras que jamais passou pela minha cabeça ter um caso ou transar com ele. Acho homens bonitos, bonitos; ainda que me sinta, via de regra, diminuído perto deles. Mas não passa disso. A coisa de acharem que sou isso ou aquilo já não me afeta mais, definitivamente. Pra falar a verdade mais clara possível eu gostaria muito é de namorar muitas mulheres. Sentir todos os seus perfumes, sentir todas as suas formas, sabores. Isso sim eu gostaria. Mas não posso. Seria uma tremenda sacanagem com a minha esposa. Pra te contar um fato muito importante pra mim, houve uma mulher – mulher mesmo, fina, inteligente, apaixonante – com quem tive um relacionamento extraconjugal e depois de tudo eu aprendi que só fiz machucar as pessoas e eu mesmo. Ela me disse, na última ligação que atendi: “Se você sabia que não podia me ter inteira, porque levou adiante?” Ainda sinto saudades dela. Mas amo minha esposa. Re-aprendi a amá-la. Na verdade se não fosse minha esposa eu talvez nem estivesse aqui agora digitando estas linhas pra você, Caio.


3. Você já esteve antes na vida numa posição de submissão a alguém?

Sim, sempre. É uma coisa doida o que acontece comigo. Como chefio mais de 30 pessoas, com eles eu sou o cara que manda, desmanda, ainda que tudo no respeito, na amizade, sem tiranias. Mas quando se trata de ser o comandado eu fico todo murcho. Todo medos. Todo temores. Minha relação com minha esposa, por exemplo, é uma relação na qual eu prefiro que ela tome as decisões. Tome conta da grana. Tome conta de tudo. Eu quero meio que ficar alheio. Já no trabalho eu gosto de comandar as coisas. Saber de tudo. Ter tudo sob controle, sob o meu controle. Mas mesmo sabendo que sou um cara competente, tenho o maior medo do meu chefe. Medo mesmo. Passa pela minha cabeça que ele pode me mandar embora a qualquer momento e que eu vou estar frito. E isto me tira noites de sono muitas vezes. Lá no esquema g-12 a submissão era total. Ainda que eu com muita espiritualidade tirava um sarro da coisa pra não ficar tão pesada e o pessoal me colocava pra ser o porta-voz das lamúrias que sempre pipocavam. Dentro disso tudo fica sempre aquele papelzinho ridículo que eu faço – ainda que sempre prometa pra mim mesmo não mais fazê-lo – de falar o que eu sei de antemão que vai agradar o sujeito que manda em mim…. Coisa ridícula essa… Na verdade eu tenho um sonho de ser como o João Gilberto Noll, aquele escritor gaúcho que recebe uma verba da editora pra se enfiar num buraco e produzir um livro por ano. O Rubem Fonseca também. Tenho estes sonhos: de não ter que me relacionar com as pessoas. Agorafobia. Solipsismo. O João Padilha, que escreveu “Bolha de Luzes” tem um personagem que é a minha cara (risos). Detesto ir a festas.

Até as da minha família me estressam. Ter que ficar puxando assunto, coisa e tal. Mas olha o engraçado: eu vou, me relaciono superbem (falando quase sempre o que o povo quer ouvir) e todo mundo fica “apaixonado” por mim… Só rindo…

De qualquer forma eu tento não confundir autoridade com legitimidade. Mas eu sou péssimo pra delimitar as zonas de relevância. E sofro demais com isso.
4. Como e em que ocasião sua depressividade se manifestou a primeira vez? E com que idade?

Cedo, muito cedo. Logo depois que meu pai foi embora, eu lembro que um primo nosso veio nos visitar e minha mãe começou a chorar, chorar, chorar, e aquilo me angustiou muito. Fiquei triste pra cacete. Com raiva também. Eu tinha 7 anos. Depois veio a fase da adolescência, das comparações com meu irmão esportista, e dos dias, meses, anos, passados sozinho em casa, ouvindo o Michael Jackson na vitrola e pensando em viver a vida dele, que, definitivamente não era a minha. Me achava feio demais. E olha que não sou nada feio (risos). Foram natais, anos-novos, todos passados sozinho. Meu irmão jogando bola na Europa, meu pai com a mulher dele e seus outros filhos, minha mãe com os namorados dela eu ali, assistindo o Barros de Alencar, descobrindo a masturbação e cigarros como companheiros e olhando o mundo pela janela da nossa casa alugada. Eu sentia já à esta época – 13, 14 anos – a mesma coisa que agora aqui dentro pulsa em mim: um desespero, uma impressão de que vou explodir, de que vou fazer alguma merda. Depois, mais tarde, como era natural, me liguei naquela fase “dark” em que a gente só andava de preto, lia Baudelaire, ouvia Pink Floyd, The Cure e assistia sem parar o Marlon Brando em Apocalipse Now. Eu via as meninas, e pensava: “Puxa, eu te amaria tanto se você me deixasse.” Mas nada rolava… Depois mais velho, 30 anos por aí, fui fazer terapia com um cara super legal e anotava tudo no meu “Diários do Subterrâneo”. Foi nessa época que comecei a tomar o clona misturado com clomipramina, triptofano e outras coisas e dei uma despirocada. Mas resolvi parar.

Eu sei que cabe ao analista fatiar e eu depois juntar em casa. Mas minhas “gestalts” parecem que não fecham nunca. Só abrem, abrem, abrem.

Minha esposa sempre me diz: “Cara, todo mundo sofre, não sei porque você não relaxa….” Mas eu sempre re-encuco. Tenho medo de ficar desempregado. Tenho um medaço do meu diploma e do que não fiz com ele. Tenho tudo. É isso. Tenho um amigo que diz que eu ainda sou feliz porque tenho estas âncoras de preocupação, porque caso contrário eu já teria partido.

O que mais me irrita – e você foi mais-que-perfeito ao escrever sobre o “desencontro profundo entre a minha razão e minhas emoções” – é justamente saber que eu tenho tudo pra ser feliz. Tudo, em absoluto. Vejo gente na pior e feliz. E eu aqui choramingando. Mas ao mesmo tempo eu sinto que não é chorinho de filhinho de papai (que não sou, diga-se, visto que desbravei meu caminho sozinho e com minha esposa), é uma coisa pior que eu não sei o que é.

Ufa! Acho que é só tudo isso.

O mesmo amigo de que lhe falei acima me diz que a arte existe justamente pra gente sublimar a existência. E você também disse isso de certa forma. Mas eu fico naquela de achar que as minhas pinturas, os meus textos, o meu blog, tudo o que eu faço, e faço muito bem, não estão dando conta do recado. As letras estão invertidas pra mim. E eu tinha mesmo muita esperança naquela terapia ocupacional. Mas será que sempre será assim? Sempre eu vou ter que depender de remédio e terapia? Que pai serei para as minhas filhas?

Tenho medo da máscara cair.

Um beijo Caio.

E como disse é inefável o que você tem feito por mim ao direcionar parte do seu tempo pra mim. Te agradeço eternamente. Eternamente mesmo.

Bom, Agora chega de te importunar.

Beijão.

E aparece em casa pra gente tomar um bom vinho e bater um papo.
Pode acreditar, eu não sou tão ruim assim como parece (risos).
____________________________________________________________

Resposta:

Meu amado amigo: Graça e Paz!


Se tomássemos o caminho da psicanálise para tratar a questão, certamente você seria um “prato cheio”, por tudo o que narrou antes e agora. No entanto, meu amigo, eu não creio que a psicanálise o ajudará muito. Na realidade eu creio que o que você precisa é se ligar a Deus em um conhecimento profundo, e que seja o resultado de sua entrega em amor a Jesus e ao Evangelho. Mas fazer isso no nível psicológico também; ou seja: “de todo o teu coração”.

Escavar sua alma poderá apenas desenterrar defuntos que já nem sejam tão importantes assim. De fato, a cada dia que passa, mais me convenço de que as grandes mudanças são simples; e são fruto de uma rendição da mente ao amor. Ora, esse amor do qual estou falando é uma escolha, uma decisão, uma consciência.

É obvio que num mundo como o nosso (com tantas propagandas de prazeres, de hedonismos, de surubas, de mulheres gostosas—mais de uma na cama—, de gozos e gostos, e de experiências novas), quase todo mundo que eu encontro está na sua situação: se pudesse, soltaria a franga, pegaria todas, não pouparia a si mesmo de nenhum gosto ou prazer.

No entanto, todo esse “sentir”, é fruto do curso deste mundo e de sua propaganda maligna e perversa; objética e fetichista; rápida e prática; sem nomes ou compromissos; com possibilidade de variedade quase ilimitada de experimentos.

Ora, o que vejo a cada dia que passa é que todo mundo está sendo atingido por esse espírito que cobre a terra como um manto; o qual abraça as almas com o abraço que não abraça, que é o abraço da carência e da aflição, e que diz para a alma humana que a passagem de cada pessoa pela Terra terá tido valor apenas se a pessoa “experimentar” muitas coisas nesse mundo de múltiplas ofertas, e, no qual, as escolhas da alma acontecem num Shopping Center de escolhas vazias e pobres.

Assim, deixando Freud de lado e também a religião, especialmente essa gedoziana, quero recomendar a você alguns exercícios e disciplinas:


1. Já que você decidiu investir em seu casamento e que está conseguindo bons resultados, então, aprofunde-se ainda mais. Dedique-se a amar sua mulher; a fazer amor com ela; a tratá-la com carinho e consideração; e, sobretudo, com reverência por ela.

2. Trate sua insegurança em relação às figuras de autoridade como coisa de natureza espiritual. Ou seja: combata essa insegurança e esse medo com confiança. Sim, com confiança. Confiança em Deus, meu amigo, é entregar, descansar, e viver sabendo que existe um Cuidado e uma Provisão sobre nós. Assim, lhe digo: mais do que qualquer coisa você precisa conhecer a fé como confiança. Quando isto acontecer, você verá que como por encanto tudo isto vai desaparecer. Sim, se sua visão acerca de Deus ganhar confiança, então, você verá que sua vida mudará completamente; e você será possuído por uma segurança que você nunca conheceu.

3. Trate a questão do pastor gedoziano da seguinte maneira: Não se grile com o que houve. Fique longe de lá. Não mexa mais com esta questão. Vire essa página. E saiba: eu sou “pastor”, “reverendo”, e todas essas outras bobagens da religião funcional e estatal. Ora, é justamente por essa razão que lhe digo que nenhum pastor desse mundo é alguém “a mais” para Deus do que você. Na realidade, o sistema gedoziano usou as formulas de “autoridade espiritual” do Lee, e, a elas acrescentou o controle piramidal e a obsessão pelo crescimento numérico; sem falar num sem-número de outras tolices. Todavia, a pior coisa que eles fizeram foi a ressurreição do sacerdócio individual de alguns em favor de muitos: os “apóstolos atuais” chamam para si mesmos esse papel totêmico; eles só não aceitam é o lado avesso do totem, que é a execração. Ora, um homem com suas dificuldades naturais com a questão das figuras de autoridade, posto num lugar gedoziano, não tinha como não desenvolver as fobias e pânicos que você desenvolveu. Você já os tinha; porém, lá, as coisas ganharam contornos mais sérios para você, e que é o resultado de se misturar uma fraqueza psicológica com o medo que a religião patrocina em relação à figura de Deus; e de seus representantes na terra; no caso gedoziano, o “apóstolo”. Portanto, considerando os antecedentes, posso dizer que você saiu até muito bem dessa encrenca psicológica. Tem gente que não sai. Atendo um monte de pessoas que enfermaram dentro dessa “rodinha de hamster”, que é o G12, bem como dentro de todas as demais coisas que andam no seu espírito de quantificação, controle e clonagem.

4. Acalme seu coração uns meses, e, depois, comece a reunir os irmãos. Sim, há muitos como você aí; além de que eu creio que o exercício de uma liderança feita a partir do conhecimento do significado do que é se sentir oprimido pela autoridade, pode dar a você uma grande vantagem no exercício de um papel de liderança. Isto se você não esquecer que também “já foi peregrino e estrangeiro” em terras de reis controladores e opressivos.


5. Há também em você um forte desejo de não ter crescido. E essa falta de desejo na maturidade independente e confiante tem feito muito mal a você. Portanto, recomendo que você leia o livro “A Trilha Menos Percorrida”, de Scott Peck, pois creio que nele você encontrará bons fundamentos para entender a si mesmo; bem como também nele você discernirá o significado do que seja maturidade, segurança e amor.


Por enquanto é só isto. O mais é muita leitura dos evangelhos, em voz alta, e a leitura dos salmos, em voz alta. Faça isto todos os dias. Ouça o que está lendo. E depois escolha a passagem que tenha “escolhido” você—porque o que tenha tocado—, e passe um tempo em silêncio, meditando nela; depois saia em paz.

Ora, todos esses conselhos são dados levando em consideração que você deseja viver “vida mansa e tranqüila, com toda piedade e respeito”. No entanto, eu sei que o apelo deste mundo de seduções é para que você se entregue a uma existencialidade de experiências e experimentos, os quais, saiba, eu sei, por experiência própria, nada fazem de bom à alma, e a ela nada acrescentam; exceto dor.


Receba meu amor e reverência pela sua alma!

Nele, em Quem nada nos falta,


Caio

www.caiofabio.net

O que é ser santo?

0 comments

Posted on 19th fevereiro 2010 by Roberto in Artigos

(Trecho do livro Oração para Viver e Morrer , páginas 38 a 41, por CAIO FÁBIO, 1994. Digitação de Dora Ramos)

Vejamos o que Jesus estava nos ensinando quando relacionou o tema da santidade à Palavra e aquilo que Deus faz a nosso favor.

1. O tema da Santidade conforme relacionado à Palavra de Deus (João 17:17). Para Jesus, a Palavra de Deus era o que poderia nos santificar. E para Ele não se tratava de uma definição de santificação esotérica e mágica. Ele não tinha em mente nenhum tipo de exposição mágica da alma humana à Palavra ao fim da qual a pessoa estivesse mais santa. Na sua mente não passavam aquelas “percepções” de que a mera exposição à Palavra santificava o ouvinte. Para Jesus, ser santificado tinha, na verdade, uma profunda e indissolúvel relação com a assimilação dos conceitos da verdade de Deus, mediante um aprendizado não apenas teórico e teológico da letra da Palavra, mas mediante a vivência da presença de Deus na história em conformidade com o padrão da Palavra de Deus feita verdade no coração.

Tal percepção da relação da Palavra com a vida deve nos comprometer com a confissão de que Deus é santo e com a vivência da santidade. Além disso, ela nos induz também a perguntar por dois conceitos básicos encontrados na prática de Jesus. O primeiro tem a ver com o conceito de Palavra de Deus no entendimento de Jesus. E o segundo é aquele relacionado a como Jesus, à luz de Sua interpretação da Palavra, entendia o tema da santidade.

Comecemos com o que a Palavra significava para Jesus e o que Ele chamava de Palavra de Deus. Inicialmente devemos dizer que Jesus olhava para a totalidade do Velho Testamento como Palavra de Deus (Jo. 5:39). Para Ele a questão nunca esteve entre o que era ou não Palavra de Deus no Velho Testamento, mas, apenas, em como entender, interpretar e aplicar essa Palavra ao contexto da vida humana. Ora, neste sentido Mateus 22:23-46 é o melhor exemplo disso. Nos três episódios narrados naquele texto, a grande questão não é o que é Palavra de Deus, mas como entendê-la e aplicá-la (Mt. 23:2,3). É por esta razão que nós não vemos na prática de Jesus querelas teológicas, na perspectiva seletiva a respeito do que deveria ser retirado do Velho Testamento para ser abandonado ou reforçado na prática dos seus discípulos (Lc. 24:45). Pelo contrário, para Ele, o Velho Testamento dava uma base e finalidade histórica (Lc. 4:16-19). Sua missão tinha suas raízes mais profundas nos sonhos dos profetas (Lc. 24.27). Seus sofrimentos e glórias já tinham sido vistos e saudados desde o início da caminhada histórica do povo de Israel (Lc. 22.36,37). Ele próprio tinha sido alegria existencial e a inspiração dos patriarcas e profetas (Jo. 8.56). Sua mensagem não era nova, mas o aprofundamento da revelação já existente (Mt. 22:34¬40; Lc. 10.25-28). Sua expectativa de aceitação e rejeição do seu ministério se baseava naquilo que a Palavra lhe autorizava a esperar (Mt. 13.14,15). A própria maneira sombria pela qual ele anuncia sua morte se fundamenta numa interpretação teológico-ideológico da freqüente e histórica atitude do povo de Israel, conforme descrita nas Escrituras (Lc 13.31-35). Para Ele, o Gênesis de 6 a 11 era digno de confiança histórica (Mt. 24.38-39). Além disso, o modo pelo qual ele interpretava a saúde relacional do homem e da mulher se fundamentava na originalidade do plano da criação conforme revelado no Gênesis (Mt. 19.4-6). A conexão entre pecado e queda, bem como entre ideal e realidade era para ele extraída da Escritura (Mt. 19:7-9).

Até mesmo textos do V.T. de ares místicos foram encarados por ele como absolutamente simples e reveladores do modo pelo qual Deus age na história (Mt. 16.1-4). Assim, tudo que Jesus fazia tinha seu fundamento no Velho Testamento. Seu território ministerial (Mt. 4.12-17), o exercício das curas (Mt. 8.16-17), a pregação (Lc. 4.16-19), o ensino (Mt. 6-7) e a atitude de discrição e singela misericórdia (Mt. 12.15-21) estavam fundamentados no Velho Testamento. Seu sermão do Monte era, em síntese, a pregação do sonho dos profetas. De fato, o Sermão do Monte é a condensação das utopias dos profetas. Aquilo que eles não tinham conseguido chamar de História, Jesus chamou Vida.

Concluindo, nós poderíamos dizer que, literalmente, toda a Escritura tem em Jesus sua afirmação: o Pentateuco (Mt. 22.23-29), os livros históricos (Mt. 12.1-7), os poéticos (SI. 118.26;22.8), as sabedorias (Mt. 12.42) e os profetas (Mt. 26.31). O próprio fato de as genealogias de Jesus estarem incluídas nos evangelhos com todas as ambigüidades “morais” às quais elas estavam sujeitas, pois Jesus descende de gentios (Mt. 1.3,5), adúlteros (Mt. 1.3-6), prostituta (Mt. 1.6), homicidas (Mt. 1.10) e ancestrais cheios de sincretismos (Mt. 1.7-10), nos mostra que, propositalmente, Ele quer estar ligado à História do Velho Testamento (Jo. 5.39).

Isto posto, devemos agora relacionar a Palavra com o fato de Jesus ter dito que deveríamos ser santificados por ela. Ora, nesse caso nossa visão do escopo e da profundidade da santificação muda radicalmente. Ser santo é buscar ser essencialmente humano, ser parte da história porém vivendo a presença de Deus no mundo (Lc. 7.39). Ser santo tem relação com a busca de uma sociedade sem desigualdades e onde os mais fracos jamais sejam despojados (Mt. 23.14). Ser santo é viver a alegria do conhecimento de Deus com oração e fé e é sofrer as angústias da história como resultado de nossos vínculos com um padrão que o mundo não conhece (Mt. 11.25-27; 5.11-12). Ser santo é ser separado, não dos pagãos; como Israel equivocadamente tentou, mas é viver a diferença radical dos valores do Reino em meio às sociedades pagãs (Mt. 5.43-48). Ser santo é ter na paixão dos profetas a motivação existencial para o nosso enfrentamento histórico do mal (Lc. 13.33). Ser santo é, mesmo em dia de sábado, trabalhar a favor da santidade de vida (Lc. 14. 1-6). Ser santo é colocar o valor da vida acima do valor das coisas, mesmo aquelas mais “sagradas” (Mt. 23.23). Ser santo é entender que o altar diante do qual Deus nos quer ver prostrados não é apenas o altar do templo, mas também os altares ensangüentados dos corpos dos nossos irmãos de história e que estão caídos nas esquinas da vida (Lc. 10.25-37). Ser santo é viver a misericórdia no agitado ambiente secular, ao invés de viver a quietude alienada do ambiente religioso que não tem janelas para a história da dor humana (Mt. 9.9-13). Ser santo é acreditar que a santidade não se polui quando toca com amor, aquilo que é sujo (Mt. 8.1-4; Mc. 7.1-23). Ser santo é não temer ser mal interpretado pela mente daqueles que estão sujos de pretensa santidade.(Mc.7.5;Lc.7.39).

Para Jesus, ser santo é ser verdadeiro para com a nossa condição humana: é ter a coragem de chorar em público (Jo. 11.35), de admitir perdas e saudade (Jo. 11.36), de gritar de dor (Mt. 27.50), de confessar depressão (Mt. 26.38), de pedir ajuda emocional (Mc. 27.50), de se confessar cansado (Jo. 4.6), de dizer tenho sede (Jo. 19.28), de confessar dificuldades familiares (Mc. 3.21;Jo. 7.1-9), de admitir que a privacidade é um direito e uma necessidade de sobrevivência (Mc. 6.30-32,45,46). Ser santo é admitir que o amor pode ser exercido na perspectiva da disciplina física (Mc. 11.15-19) e que o “desabafo” é um sadio escape quando se está farto de estupidez (Lc. 11.31-32). Ser santo é continuar sendo de Deus mesmo em meio ao mais profundo e inexplicável silêncio divino (Mt. 27.46).

Desse modo, não santificamos a Deus quando falamos o seu nome enquanto furtamo-nos à verdade e praticamos todas aquelas coisas que a Palavra de Deus decreta como abominações, ainda que disfarçados pela nossa pseudo-moralidade. Também não santificamos a Deus com a nossa teologia reducionista e domesticadora da divindade, que pretende reduzi-lo a dogmas, ritos, liturgias e espaços. Também não santificamos a Deus com a nossa noção de sermos secretários da divindade, achando que sabemos tudo sobre Ele, achando que discernimos toda a Sua vontade, como se tivéssemos todas as manhãs uma entrevista marcada com Ele, na qual nos mostrasse detalhadamente todos os caminhos da vida. Blasfema contra Deus quem não pode dizer como Paulo em Romanos 11:33-36, que ninguém jamais conheceu ou penetrou na totalidade dos seus caminhos. Blasfema contra Deus quem não se abriu para o ministério de Deus. Não santificamos a Deus quando todo o nosso interesse em relação a Ele é sermos “ajudados”. Ofendemos a Deus não somente pela negação do Seu poder, mas também pela súplica egocêntrica. Não se santifica a Deus quando se estabelece um lugar para ele morar, caindo nas teologias pagãs do “lugar santo”. Ora, lugares só são santos quando santificados pela presença de homens santos que cultuam ao Deus Santo. Não se santifica o nome de Deus quando se viola a sua imagem e semelhança nos seres humanos que nos cercam. Não se santifica a Deus onde os pequenos são apenas suportados e os grandes são preferidos. Não se santifica a Deus nas nossas ruas cheias de meninos nus e crus, que perambulam como cães virando latas de lixo. Não se santifica a Deus quando a Igreja se toma um “bastião” do poder religioso, capaz de favorecer influências políticas mundanas e iníquas. Não se santifica a Deus quando nossa esposa não é santificada pelo nosso convívio e os nossos filhos e amigos não provam o benfazejo resultado da nossa ligação com Deus.

2. A obra redentora de Jesus conforme relacionada ao tema da santidade: “E a favor deles eu me santifico a mim mesmo…” (v.19) A segunda idéia à qual o tema do Pai Santo e da santidade está relacionada em João 17 é a obra salvífica de Jesus. Isso porque a santificação que o Pai santo pede dos Seus filhos só pode ser vivida em Cristo. É por isso que Jesus, conquanto nos desafie concretamente à vivência da santidade, nos faz provisão espiritual para que tal santificação seja uma possibilidade. Sem tal provisão espiritual a vida cristã é simplesmente impossível. Talvez essa seja justamente a nossa principal falha histórica: tentar viver por nossa própria conta e meios a santidade para a qual somos chamados. Talvez o mais terrível exemplo disso na atualidade esteja exatamente demonstrado na queda dramática e escandalosa de pregadores cujos projetos teológicos e pessoais pregam comportamentos de santidade antropocêntrica. Ora, a única diferença entre legalismo e santidade é que o primeiro é esforço humano e o segundo é obra do Espírito.

Por que estou dizendo isso? Simplesmente para mostrar o que Jesus dissera quando afirmou que a “favor dos discípulos Ele se santificava a si mesmo”, era muito mais do que poesia sacerdotal. De fato, tratava-se da mais fundamental afirmação de segurança espiritual que a Palavra de Deus nos oferece. É sabido por todos nós, que Jesus Cristo é a única provisão de Deus para a salvação humana. E na minha maneira de ver, salvação e santificação andam extremamente ligadas. Para entendermos o tema da santificação, precisamos entender primeiro o tema da salvação e aquilo a que ela está ligada.

Ora, Deus está redimindo hoje o espírito humano de modo forense e judicial, por causa da obra de Jesus na cruz. No entanto, tal salvação também traz consigo o anúncio das boas novas de um processo redentivo, multidimensional, que Deus continua a realizar, atingindo variados segmentos da nossa própria vida. É isto que Paulo diz num texto que tem criado problemas na mente de muitos irmãos: “… desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar segundo a sua vontade” (Fp. 2.13). O fato de a salvação precisar ser desenvolvida não significa que ela tem de ser conquistada. Nós só desenvolvemos aquilo que temos, e nós temos a salvação, definitivamente, pela fé na Graça de Cristo. Tal salvação, precisa apenas expandir-se, corporificar-se e multidimensionar-se na existência humana. É também por isso que Paulo continua apresentando alguns exemplos básicos de como fazer a salvação “crescer”: “sem murmurações nem contendas”. Ora, isto tem a ver com a nossa interioridade curada e com as relações que precisam ser reconciliadas para que, na História, nos tornemos “irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus, e inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta”.

A salvação judicial e forense, por meio da fé em Jesus, deve desembocar num processo de humanização, tendo Jesus como protótipo, conforme diz Romanos 8.29 “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. A salvação que se recebe pela fé, desse momento em diante, entra na fase de desenvoltura dentro de cada pessoa para quem Jesus é o Salvador, o projeto, o protótipo, a referência e o Mestre. Isto porque o plano de Deus é que esta salvação se multidimensione em cada um de nós, de modo a caminhar na direção de tornar cada pessoa “conforme a imagem de seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos”, os quais são parecidos com Ele.

Assim é que, metafisicamente, aos olhos de Deus, nós somos uma obra acabada. Sua graça nos fez totais aos Seus olhos, de modo que judicial e forensemente estamos justificados. Mas historicamente falando, porém, veja o que Paulo diz em Filipenses 3.12,13: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus”. No versículo 16 diz ainda: “Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos”. O versículo 15 ele já havia dito: “Todos pois que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”. Os dois elementos (salvação-forense-judicial versus salvação-histórico-processual) estão presentes nestas citações.

Veja o que se diz acerca da salvação forense-judicial: “Nós que somos perfeitos” (v.15). Ora, tal afirmação só é possível em Cristo. Fora dele, nenhum de nós, inclusive Paulo, é imperfeito e inacabado.

Veja agora o que se diz sobre a salvação histórico-processual: “não tenho obtido a perfeição…mas prossigo para conquistar…todavia andemos de acordo com o que já alcançamos…” (v.12,13,16).

Assim é que, forense e judicialmente estamos perfeitos em Cristo.

Historicamente, porém, estamos ainda a caminho, de modo que a justificação já realizada e acabada em Cristo não deve estagnar o processo histórico de continuidade de nossa salvação. Com relação a este último aspecto, Paulo utiliza em Filipenses três palavras e expressões processuais do tipo “prossigo”, “avançando”, “andemos”, “não alcancei”, e “tenho um alvo”. São palavras e expressões que nos colocam a caminho e que não permitem que a justificação se engesse no moralista religioso ou se apóie na graça barata.

Ainda em Filipenses 3, Paulo diz que a salvação, enquanto obra a ser desenvolvida, implica num processo histórico, pois tem relação com três tempos: passado, presente e futuro. Ele diz que as “coisas que para trás ficam”, para trás ficam; que as coisas do presente ao presente pertencem (“não que eu tenha alcançado”) e que as coisas do futuro, “diante de mim estão”. Ora, isto é precisamente o que compõe a História: presente, passado e futuro. Portanto, tal salvação-santificação tem que se desenvolver aqui, na História.

Paulo também afirma que este processo histórico pode ser chamado de processo de “cristificação”. Esse processo é dinâmico. Ele diz: “…não obtive, porém prossigo…”. Todos nós podemos alcançar tudo quanto Deus colocou à nossa disposição.

Ora, aqui neste ponto nós voltamos objetivamente ao tema da santificação, e com uma pergunta. Isto porque uma vez que os conceitos básicos relacionados com a salvação estão postos, nós devemos perguntar o que isso tem a ver com a nossa santificação. Não devemos nos esquecer de que em João 17, texto de nosso estudo, o Senhor Jesus disse que Ele mesmo se santificava a nosso favor. Ou seja: há algo da vicariedade de Jesus na nossa santificação também. É bom afirmar isto, pelo simples fato de que há muito legalismo com relação à perspectiva da santificação. Na maioria das vezes, a santificação tem sido entendida como sendo o “lado humano” da salvação. Ou seja: “Cristo nos salvou e cabe a nós tornarmo-nos dignos da salvação através da santificação”. No entanto, não há santificação possível que prescinda também da graça santificadora de Deus. Com isto não estou dizendo que a santificação não implica em compromissos éticos concretos na história. Se assim fosse, eu estaria negando tudo o que escrevi a respeito da necessidade das nossas vidas confirmarem a revelação da Palavra. Como diz Willian Barclay: “o cristianismo, como também o judaísmo, é essencialmente uma religião ética. Por isso se deve dizer que o cristianismo insiste que o ser humano deva viver um certo tipo de vida e ser um certo tipo de pessoa” (William Barclay; “The Mind of ST. Paul”, pág 75).

Do mesmo modo que o Novo Testamento ensina que a salvação é fruto da graça de Deus realizada e consumada em Jesus Cristo, ele nos ensina também que a realidade da santificação se alimenta da mesma fonte de eficácia espiritual: a Graça. A santificação resulta de uma vida que antes de tudo se viu morta em Jesus Cristo para o pecado (Rm. 6.11-14). Na realidade, a questão-chave da santificação se resume na expressão “estar em Cristo”. Estar em Cristo significa TUDO na vida cristã. Literalmente, não há qualquer progresso humano possível, fora desse estar “em Cristo”. Neste sentido, há uma diferença fundamental entre estar “em Cristo” e estar “na igreja”. Obviamente acredito que estar em Cristo significa também estar na IGREJA de Cristo. A questão, no entanto, é que a Igreja de Cristo se misturou com aquilo que nós chamamos de Cristandade. Foi precisamente nesse sentido que Santo Agostinho disse “que a igreja tem muitos aos quais Deus não tem e que Deus tem muitos aos quais a igreja não tem”. Para Santo Agostinho, a “igreja” não era necessariamente a IGREJA. Podia ser apenas uma deformação institucionalizada daquilo que Jesus sonhara.Isso porque, Santo Agostinho quanto nós, acreditamos que quem de fato está em Cristo está na IGREJA, e na comunhão da fé que a verdadeira Igreja promove e para a qual nos convida. No entanto, há aqueles que estão na IGREJA e que não conseguem “entrar nas igrejas”. Esses são cristãos, mas não suportam aquilo que nós chamamos de “cristianismo”.

Descrevendo esse afastamento do cristianismo em relação à IGREJA conforme exposta no Novo Testamento, Jacques Ellul afirma em “Subversion of Christianity” o momento histórico em que essa mudança teve e tem lugar. O momento é exatamente quando sai-se da perspectiva orgânico-qualitativa de igreja para a perspectiva organizacional-institucional (por exemplo, quando a comunidade da fé vira “-ismo”). Nesse caso, é como se uma fonte de água viva fosse transformada em um canal de irrigação mais ou menos regulado e estagnado, até ao ponto em que a água da fonte original torna-se totalmente poluída na medida em que ela vai sendo “mecânica e artificialmente trabalhada” pelo sistema de distribuição.

De fato, o grande segredo da santificação, como já dissemos, é estar em Cristo e tendo sempre a coragem de verificar se estamos mesmo nEle (II Co. 13.5) Este é o princípio essencial à santificação e às demais virtudes da fé cristã. Do ponto de vista do Novo Testamento, “em Cristo” nós temos:

1. Consolação: “Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria…” (Fp. 2.1,2).

2. Ousadia: “Pois bem, ainda que eu sinta plena liberdade em Cristo para te ordenar o que convém ” (Fm 8).

3. Liberdade: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, e reduzir-nos a escravidão” (Gl. 2.4).

4. Vitória contra a mentira: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência” (Rm. 9.1).

5. Promessas: “…a saber que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (Ef. 3.6).

6. O AMÉM de Deus à vida: “Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para a glória de Deus, por nosso intermédio” (11 Co. 1.20).

7. Somos santificados: “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Co. 12).

8. Somos sábios: “Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós sábios em Cristo; nós fracos e vós fortes; vós nobres e nós desprezíveis” (Co. 4.10).

9. Somos novas criaturas: “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: As coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (II Co. 5.17).

10. Somos chamados: “Porque o que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente o que foi chamado, sendo livre. é escravo de Cristo” (I Co. 7.22).

11. Temos o mais elevado objetivo: “Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.14).

12. Apesar de tantas vezes sermos imaturos, somos salvos: “Eu. porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais; e, sim, como a carnais. como a crianças em Cristo” (I Co. 3.1).

13. Estamos estabelecidos: “Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus” (11 Co. 1.21).

14. Podemos andar em vitória: “Ora, como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele” (Cl. 2.6).

Tudo isso parece simples demais para as mentes mais sofisticadas e teológicas, as quais, por certo, até “pularam” esta série de 14 afirmações decorrentes de se “estar em Cristo”. No entanto, as coisas acima mencionadas são seriíssimas. Senão veja: se elas são assim tão simples, por que há tão poucas evidências dessa santificação em nosso meio? Por que tanto pecado, imoralidade, roubo, mentira, descrença, administração iníqua dos bens da igreja por parte de líderes? Por que tanta traição, falsidade, calúnia, inveja e maldade? E mais: por que isso acontece tão intensamente dentro da igreja quanto acontece fora dela? E mais: por que os grupos cristãos mais legalistas são, tantas vezes, as mais desgraçadas vítimas desse fracasso?

Talvez tudo isso aconteça pela simples razão de que aquilo que o evangelho nos convida a ser tem íntima ligação com a Graça de Deus. E, nesse sentido, aquilo que o evangelho oferece é intolerável e inaceitável. Você julga que há alguma coisa aceitável na graça? Não! As pessoas não gostam da graça justamente porque a graça não lhes dá controle sobre a situação. A graça não depende de mim. Ela extrapola meu domínio. Não há nada de seguro no fato das pessoas condenadas à morte estarem livres dela porque um desconhecido e Estranho Soberano simplesmente as livrou disso, sem lhes dar qualquer razão justificável para tal ato. A graça é totalmente arbitrária: “Eu serei gracioso para quem Eu quiser ser gracioso e misericordioso para quem Eu quiser ser misericordioso…” Nesse caso não há nada que possamos fazer: não há sacrifícios, ritos, orações, atos de bondade, busca de sabedoria, ascetismo moral e religioso, etc. Nada pode ser feito para se ter controle sobre a graça. Não há trocas a serem feitas, e assim nos sentimos extremamente humilhados na nossa incapacidade de “justificar” a relação, pelo menos por um pouco. A graça exclui tudo aquilo que nos garante segurança. Nossos sacrifícios não são aceitos, nossos moralismos são ridicularizados, nossas liturgias são chamadas de cansativas, e nossas justiças próprias são chamadas de trapos de imundícia. Pode haver algo mais afrontoso para a natureza humana do que esse estado de absoluta impotência no qual a graça coloca a todos nós? Não! E por isso que o legalismo é o supremo ato de rebelião contra Deus. O legalismo é mais blasfemo do que o desconhecimento de Deus (Rm. 2.12-16). O sincretismo, o paganismo e a promiscuidade suscitaram menos a ira de Jesus do que o legalismo que lutava contra a graça. Todos nós ficamos possuídos por um desejo obcecante de justiça própria. Temos obcecante desejo por nos mostrar justos e retos. Nossa maior idolatria é aquela na qual nós mesmos somos os “nichos” e os “santos” do nosso culto moral. Nosso maior prêmio é sermos vistos como justos pela nossa comunidade. Ora, nesse sentido, nós, “religiosos”, somos menos suscetíveis à graça de Deus do que as meretrizes e os pecadores da nossa sociedade? Eles já estão “como canas quebradas e como torcidas que fumegam” (Mt 12.20). Eles já perderam a chance de lutar pela sua justiça própria. Foi por isso que eles foram os mais receptivos à graça de Deus durante o ministério de Jesus.

Eu quero dizer que a única maneira de receber o beneficio da graça de Jesus que nos santifica é mediante a aceitação da nossa total incapacidade de justificar o que Deus fez e está fazendo em nós. Somente quando nossas armas estão completamente depostas é que o Espírito pode atuar em nós, a fim de nos fazer entrar no profundo processo da santificação. Cristo já fez tudo na Cruz. O que nos resta é exorcizar os demônios das nossas pretensões religiosas, a fim de sermos suficientemente simples para receber aquilo que só os humildes de espírito admitem: a graça de Deus.

Paginas 38 a 47 de Oração Para Viver e Morrer , escrito por Caio Fábio em 1992 e publicado em 1994.

www.caiofabio.com