Deus só é bom se for fixo?

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Posted on 30th abril 2009 by Roberto in Reflexões

Quando Jesus disse “Quem me vê a mim, vê o Pai”, acabou todo o trabalho de especulação acerca de Deus; e iniciou-se o caminho do conhecimento de Deus pela via da experiência pessoal do individuo com Jesus; como também se deflagrou, explicitamente, a jornada do conhecimento de Deus pela simples e humana manifestação de Jesus para com todos os tipos de seres humanos.

Olhando Jesus, vejo Deus se relacionando com os seres humanos num mundo não-ideal, ou, caído, como se costuma dizer. Assim, Jesus revela a relação de Deus com a vida conforme os olhos humanos a vêem. E propõe a relação do homem com Deus como amor a Deus que se manifesta de modo humano; amando a Deus no próximo.

Em Jesus, o amor a Deus, se torna algo simples como Ele disse que simples seria ver o Pai: simplesmente olhando para Ele: “Quem me vê a mim, vê o Pai”. Todavia, seguindo o mesmo sentido e qualidade relacional, Jesus disse que se Deus é visto no Filho do Homem, do mesmo modo Deus só é amado no homem.

Desse ponto em diante começa a vida com Deus que se faz marcar pelo “assim como…” Sim, “assim como vos amei, amai-vos uns aos outros”. Ou: “Assim como vos fiz (lavando-lhes os pés)… fazei uns aos outros”. Ou mesmo: “Assim não será entre vós…”, como quando falou que o padrão de liderança entre os discípulos não era pela via do controle, mas do serviço e da doação do ser ao próximo e sem juízo. Ou, então, para não sermos longos demais, como quando disse: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio”.

Desse modo, se substitui toda especulação pelo simples “assim como eu, assim seja com vocês, pois assim é conforme o Pai, o qual é visto em mim; pois eu e Ele somos Um”.

O interessante, entretanto, é que os humanos, que sempre criaram “imagens de escultura” para serem seus deuses, ou que, modernamente, cultuam, por exemplo, a igreja, a religião, gurus, etc…, como verdadeiros deuses —, ficam, entretanto, chocados, quando se diz que a “teologia” acabou, que a filosofia cristã especulativa e grega é uma estultícia, e que em Jesus está tudo…

Sim, Deus aberto, explicito, santamente arreganhado.

Diante disso, questão é: como se pode cultuar uma imagem fixa e criada pelo homem e, ainda assim, ficar escandalizado quando se diz, fundado no fato de que “quem vê o Filho, vê o Pai”, que quem vê Jesus, vê Deus?

A resposta é tão obvia quanto o pecado humano: “Deus de pedra a gente topa, mas vivo e humano-divino, andando e nos chamando a andar, a gente não quer”.

Sim, porque se prefere qualquer coisa fixa, seja um ídolo de barro, pau, pedra, ouro, gesso, bronze, etc; ou seja um “Deus” feito de pacotes de salvação; de unções especiais feitas por homens especiais; ou algo coberto pela aura de uma espiritualidade ativada pela via de um rito, de um culto, de uma oferta, ou de qualquer outra forma de controle e gestão do sagrado — do que simplesmente crer que quem vê Jesus, vê o Pai; e tem tudo.

E por quê será assim tão simples e complicado, tanto para “pagãos” quanto para “cristãos”?

É que essa hiper-simplificação que a encarnação faz de Deus — quem me vê a mim, vê o Pai — não é fixa, porém insuportavelmente livre. E ninguém, de fato, ou quase ninguém, gosta de liberdade; como também não quer ter que possuir uma consciência que tenha que ser exercida o tempo todo, seguindo a simplificação suprema de Deus na Encarnação; a qual é simples, mas é tão livre como o vento que sopra onde quer. E, portanto, demanda a coragem da folhas que apenas se deixam levar… E isto conforme o Evangelho, nas vísceras da existência; e sempre inapelavelmente em Deus e com Deus.

Ao final, em algum momento final de verdade absoluta, todos os humanos vão ter que admitir que amaram muito pouco a liberdade; e, por tal razão, tendo tido tudo para viver livres, sempre criaram álibis para colocarem-se sob novos jugos de escravidão; até mesmo aqueles falados elameadamente como “liberdade”. Jesus disse: “Quem me vê a mim, vê o Pai”.

Mas o problema é que Ele não disse fiquem, mas sigam-me; não disse façamos aqui três tendas, mas afirmou que quem propôs tal coisa não sabia a loucura que pronunciava; não disse fujam do mundo, mas sim vivam nele livres do mal; não propôs nenhuma evasão da realidade, ao contrário, mandou discernir os tempos; não era previsível em nada, exceto em Seu amor e misericórdia; não se impressionava com gente, nem com lisonjas, nem com números, e nem com Seus próprios milagres, ou qualquer milagre, sempre afirmando que o grande milagre era amar apesar de tudo.

Assim, sempre escandalizou quem não deveria se escandalizar; e sempre escandalizou a todos aqueles que achavam que um homem como Ele não se ofereceria para ser amigo deles.

Por esta razão é melhor chamar pau e pedra, e doutrina e dogma, de “Meu Deus”; do que apenas ver o Pai em Jesus, e, sem especulação, ou teologizações, apenas “segui-Lo”.

Por isto, tal percepção é tão danosa aos fazedores de ídolos de latão ou de pacotão de barganhas cristãs com “Deus”, como também o é aos teólogos sofisticados, e, acima de tudo, à religião.

E por quê?

Ora, qual é a diferença entre um fazedor de ídolos de pedra e um fazedor de ídolos de idéias?

Outro dia um “alto clero” evangélico me disse que “a teologia é o estudo de Deus”. Que diferença há entre tal “curso sobre Deus” e um “treinamento” que um artífice de ídolos dá a um novo assistente de oficio? “Quem me vê a mim, vê o Pai” é uma revolução que quase ninguém quer; pois acaba com quase tudo o que foi instituído como divino e sagrado. E isto vai da Macumba à Igreja Evangélica.

Enquanto isto…

Os mercenários, os lobos, ou os doutores de Deus, tentam convencer o povo de que se não forem obedecidos, ou seguidos em suas sabedorias, no primeiro caso haverá maldição; e, no segundo caso, uma viagem sem volta para fora da “sã doutrina”; a qual, só é sã porque é a deles; e eles são os “sãos” que não precisam de médico. Por esta razão, Jesus continuará a ser a manifestação e encarnação do Pai para os cristãos, desde que sempre seja visto pelos olhos mal-intencionados de uns; ou apenas fanaticamente condicionados dos que confessam tudo isto, mas têm pavor que o povo acredite, e não precise mais de suas “sacerdotalidades” a fim de prosseguirem na jornada. “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos!” —advertiu o velho apóstolo João!

Nele, que É Aquele que É,

Caio

Escrito em 2005

www.caiofabio.com

Angústia humana por promessas divinas

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Posted on 9th abril 2009 by Roberto in Cartas

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Oi Caio

Relutei muito em te escrever porque eu sei o quanto vc é ocupado, e eu não queria tomar seu tempo… vou tentar não me alongar muito
Estou escrevendo esse e-mail entre muitas lágrimas…

Tenho esperado uma promessa no Senhor há quase quatro anos.

O Senhor sempre me sustentou, e sempre que eu estive prestes a cair Ele sempre me mandou uma palavra de ânimo.

Só que de umas semanas pra cá tenho sentido uma angústia muito grande.

É como se eu estivesse morrendo no deserto.

Eu confio em Deus, sei que se Ele prometeu Ele vai cumprir, mas ultimamente meu lado humano tem falado mais alto que a minha fé.

Não quero murmurar, não quero deixar de crer, não quero ser ingrata porque o Senhor tem feito grandes coisas por mim…

Mas é como se eu não agüentasse mais esperar.

No início do ano eu li uma frase sua que eu tomei como lema pra minha vida:

“Fale com Deus. Com os homens adianta muito pouco!”.

Só que ultimamente nem orar eu consigo.

Ouço suas mensagens na rádio e só choro o tempo todo.

Não quero quebrar a pedra como Moisés, mas me sinto tão fraca.

Tenho-te como referência de homem de Deus desde a minha infância, e sei que a oração do justo pode muito em seus efeitos, por isso queria te pedir que vc se lembrasse de mim em suas orações.
Muito obrigada!
No amor de Cristo,

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Resposta:

Minha querida filha: Graça e Paz!

A primeira coisa a discernir é o que você chama de “uma promessa”.

Sim! Pois a “promessa” está fazendo você sofrer.

Entre os Católicos antigos e até modernos, “promessa” é o que o devoto faz a Deus, a fim de conseguir alguma coisa em troca.

Entre os Evangélicos “promessa” é o oposto: é que o que se julga Deus tenha ficado de fazer para gente.

Entretanto, em ambos os casos, é sempre o desejo do devoto que estabelece a promessa. No 1º caso porque a pessoa quer, quer muito, e diz: “Se me deres… irei andando até Aparecida”, por exemplo. No 2º caso porque é o desejo que está em operação também. Só que a responsabilidade da realização da promessa é de Deus. Sim! Pela fé transferimos o nosso desejo para Deus, como divida de palavra Dele para conosco.

Quando digo que essas promessas que nos fazem sofrer resultam do nosso desejo, afirmo isso porque a Bíblia está cheia de promessas que não nos fazem sofrer, apenas porque não batem com o nosso desejo na hora ou nem na vida.

Exemplo:

Jesus disse que aquele que O seguisse poderia até deixar para trás pai, mãe, irmãos, amigos, casas e bens, pois, assim mesmo, ainda nesta vida, teria muitos pais, mães, irmãos, amigos e casas, e isto com perseguições.

Nunca vi ninguém orando pedindo o cumprimento dessas palavras no seu todo. Tem gente que quer ter seus tudos e mais tudo o mais que Jesus prometeu, mas sem as perseguições. Sim. Sem perdas e sem perseguições.

As promessas no NT não são expectativas, como Abraão esperando ter um filho, baseado em uma Promessa de Deus.

Hoje a promessa é a esperança da vida eterna.

Pegue o NT e leia. Tente encontrar nele amparo para dizer:

“Recebi uma promessa de Deus de que terei um marido e Deus terá de cumpri-la”.

Paulo diz, falando do tema “esperança de converter o marido”: “Pois, como sabes, ó mulher, se converterás o teu marido?” Ao invés de fazer uma promessa ele acaba com expectativas de promessas.

O que sinto é que você creu no Evangelho da Graça de Deus, mas, ao mesmo tempo, ainda se deixa levar pela promessa como loteria do desejo consagrado a Deus.

Às vezes elegemos nossas subjetividades piedosas, adicionamos a elas uma noite feliz, ou uma palavra de fé; e, do dia seguinte em diante, temos uma “promessa a ser cumprida por Deus em nossa vida”.

Creio que Deus fale o que desejar com quem desejar, sempre. Pois, Ele é Deus.

Entretanto, também creio que 99% do que as pessoas demandam de Deus como cumprimento de promessa, seja apenas o desejo beatificado delas; mas, mesmo assim, sendo apenas o desejo pessoal, no entanto, pela “promessa”, é transferido para Deus como responsável pelo seu cumprimento em nossas vidas.

É mais ou menos assim:

Eu sou bom. Amo coisas boas. Idealizo coisas boas. Apaixono-me por algo que julgo ser bom e justo. Então, ouço na Palavra ou leio na Bíblia algo que alimenta o meu desejo. Então, pela co-incidência dos fatos, cria-se a seguinte equação existencial:

Meu desejo x Palavra ou Bíblia = Promessa.

Esta é a equação: md x pb = p.

Ora, tudo isto acontece do modo mais limpo e bem intencionado possível, mas, nem por causa disso, deixa de ser este o fenômeno.

Observando como as “promessas” são criadas na mente, vejo que em geral esse é o caminho, no caso de uma pessoinha amada de Deus como você.

No entanto…

A Promessa é apenas uma:

Está Consumado!

Acabou!

Daí em diante a vida é apenas assim:

“Pois, se vivemos, para o Senhor vivemos; e se morremos, para o Senhor morremos; quer pois vivamos ou morramos, somos do Senhor”.

Para eu dizer a você que tenho uma Promessa de Deus que não seja a Promessa já Consumada em Jesus, creia: Gabriel teria que vir conversar comigo. Do contrário, nem abrindo e pondo o dedo em um texto, nem ouvindo um profeta, nem tomando uma “promessa do meu gosto para mim”, e nem de qualquer modo – eu jamais achei ou acharia que haveria algo a ser esperado por mim, no meu futuro, que não seja aquilo que me anima a viver: encontrar com o Senhor.

Assim, sempre separei as coisas. Sempre que quis, quis eu; e assumi a responsabilidade por estar querendo ou desejando; e nunca associei meu melhor desejo que fosse ao cumprimento de uma promessa de Deus para mim.

Na realidade, afora as esperanças do amor para com os que se ama e em relação ao que se deve desejar de um modo geral como bem da vida, nunca alimentei sequer sonhos dramáticos, quanto mais expectativas de promessas.

A Promessa de Deus para mim se cumpriu em Jesus!

Tudo o mais é pirulito…

Mas a culpa não é sua.

De fato, ensinaram os crentes a transformar desejo em promessa/dívida de Deus.

Eu quase embarquei numa dessas quando tinha 19 anos e fiquei doente, seriamente enfermo. E como eu orava com os doentes e eles eram curados, achei que Deus me devia a experiência de uma cura milagrosa, em mim mesmo, em meu corpo, e não no dos outros apenas.

Orei e orei. Gemi e bufei de angustia…

Mas a bondade de Deus não cumpriu o meu desejo já em processo de virar promessa; pois, promessa é divida.

Já imaginou se Deus tivesse me feito o mal de cumprir o meu desejo/promessa?

Eu não seria quem sou Nele.

Outro Caio emergiria de tal equivoco e rasteirice de expectativas.

Afinal, as dívidas de Deus não existem. As dividas eram apenas nossas. E já estão pagas na Cruz.

Então, tudo está feito.

E mais:

Andar pela fé é não ter promessas como Roteiro de Estrada ao estilo Quatro Rodas.

Não! A gente só sabe com Quem vai… [com Ele], como vai… [em amor e verdade], e para onde vai [o Pai].

O mais, ninguém sabe coisa alguma.

É por isto que é pela fé.

Assim, com todo amor, peço a você que veja se o que você tem é uma promessa de Deus, ou apenas um casamento da sua carência, com o reforço de algo inspirado aos seus sentidos, mais algum objeto de desejo.

No caso de que fosse algo como a promessa da conversão do seu pai, diria: Deixe com o Pai e seja boa.

No caso de que fosse algo como a promessa acerca de um namorado…, diria: Deixe com o Pai e seja natural.

No caso de que fosse algo como a promessa de uma expectativa de cura, diria: Deixe com o Pai e relaxe fazendo a sua parte nos cuidados normais.

Já vi muitas moças perderem anos da vida por causa de alguma “promessa”.

Se Deus tem promessas para a sua vida, então, deixe com Ele. Ele cumpre.

A boa promessa não é a prometida, é a que ao se cumprir a gente vê que era Promessa, e que a gente nem sabia, embora todo o caminho tivesse sido feito sempre e apenas de fé em fé.

Diria apenas de modo estatístico que há 95% de chance de que sua expectativa de promessa tenha seu vinculo de cumprimento no plano afetivo.

Mas pouco ou nada importa.

O que importa é que a Promessa já se cumpriu; e não está por se cumprir.

Sobraram expectativas humanas… Mas até essas existem sob a advertência de Jesus:

“Não andeis ansiosos de coisa alguma…”

Assim, o mandamento universal da não ansiedade existencial expresso por Jesus, anula qualquer que seja a expectativa de “promessa” que se alimente da ansiedade.

Só está apto para divisar promessas quem possa fazê-lo sem ansiedade!

Entretanto, até quando Jesus mandou não andar ansioso de nada, a Promessa é uma só:

“Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas as demais coisas vos serão acrescentadas”.

Assim, querida filha, pela fé desista da “promessa”; e, pela fé, viva a vida que é a promessa andante; a saber: a vida que caminha na alegria de que o Pai cuida e sabe sempre o que seja o melhor para nós.

Repetindo:

“Promessa” é também um modo piedoso de fazer de uma idéia fixa, nossa, uma obrigação divina para conosco.

Sei que você não me escreveu esperando receber esta minha resposta.

Mas eu não agiria com amor para com você se não lhe dissesse as coisas que lhe disse.

Fiquei tocado quando você disse que recebe minha ajuda desde a infância. Por isto, como um avô que põe a neta no colo, e, com carinho, diz verdades fortes em amor, assim faço com você agora.

Receba meu carinho e orações por você!

Mas saiba: sua oração sempre será melhor que a minha!

A melhor oração é a nossa, com o coração obediente e quebrantado.

Nele, em Quem temos o Amém de Deus; ou seja: temos a Promessa,

Caio

23 de março de 2009

Lago Norte

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